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sábado, 21 de fevereiro de 2009

cascata da memória


I sing what was lost and dread what was won,
I walk in a battle fought over again,
My king a lost king, and lost soldiers my men;
Feet to the Rising and Setting may run,
They always beat on the same small stone.


W.B.Yeats, "What was lost"


nem sempre o momento é o de hoje
quando me perco no pó colado ao corpo
em cada derrota
a alma guarda todos os segundos gerados
no toque da pele na pele
cada riso solto no eco de outra voz


encontro outras de mim na cascata da memória
que lava a poeira dos despojos
e faço a viagem de volta à nascente
à alegria primeira do puro cristal de água

Foto de Jukka Vuokko

sábado, 10 de janeiro de 2009

la valse




dança comigo a valsa das recordações. à mille temps? devagar que o tempo hoje sobra. à trois temps , para começar. rodopia, vá… havia o tempo em que só tínhamos o amor. tínhamos tudo sem o sabermos. esse seria o tempo de éclater de joie. insatisfeitos, não previmos os tempos que viriam. vertigem. aceleremos. à cent temps, agora. rodopia, rodopia. a distância a impor-se dia a dia. lembras-te? o tempo de percorrer as ruas vierges et froides, froides et nues. rodopia mais um pouco. deixa o ritmo aumentar. A quantos tempos já vamos? não esquecíamos rien du tout. os regressos. os inevitáveis e melancólicos regressos. será que a distância se anulava? não respondas. rodopia, só. quero pensar que somos vieux amants, a viver esta terna guerra. mais n’est-ce pas le pire piége que vivre en paix pour des amants? rodopia que quero atingir os mille temps. quero a vertigem para te dizer o necessário. o que nunca te disse. a música está alta. tu estás tonto. não ouvirás. ne me quitte pas!
__________

De Brel:
La valse à mille temps
Quando on n’a que l’amour
Je ne sais pas
On n’oublie rien
La chanson des vieux amants
Ne me quitte pas


Foto de Andreea Anghel

domingo, 4 de janeiro de 2009

ausente da memória




"Sem memória esvai-se o presente
que simultaneamente já é passado morto"

José Cardoso Pires, in De Profundis, Valsa Lenta



Não me lembro
se me eras sangue entranhas
ou só enlevo
         adoçante de alguns dias

É certo que não me lembro
de entrar pelos olhos dentro do teu peito
e lá ficar
menina mulher
         criança de embalar

Talvez porque não me eras sangue
deixei que te dissolvesses
no peso infinito do tempo

Hoje não te reconheço
enlevo, sangue, entranhas

estranho de mim
ausente da memória         



Foto de Stefano Orazzini