sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

assim breve


queres que me diga
pelo punho de uma caneta verde
puxando lustro às palavras
com o óleo que escorre dos olhos
quando assim breve te dás

não nas minhas mãos que se contorcem
                                               no colo das palavras
não na minha boca onde o mel azeda
                                               por excesso de doçura
não em mim enquanto nada sou
                                               de ti.


Foto de Marianne le Carrour

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009




silêncio seria fácil. se não me rasgassem os pés os longos caminhos de pedras e sangue. farrapos de vida e almas estranguladas no chão das árvores milenárias. punhais secos nos olhos das mulheres. feridas abertas na pele dos sorrisos. e a luz de mil velas acesas pelos (sonhos) mortos. clamores e caladas orações. a que deus(es)? a que distraídos deuses?



só a luz magoada nos olhos da criança. mas luz, ainda. pálida. pequena chama voando no vento...


fotos da net

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

o decifrar das sombras



quando acordo vejo-me
nos ilusórios espelhos de todas as paredes.
serei uma das sombras esfumadas
na luz onírica da madrugada?
com estranhos orifícios de ver sons
tacteio tudo o que dizem os reflexos
sem cor.
decifro-me nos cantos escondidos
e estranho-te em cada raio de luz.
devagar a crua iluminação do dia
compõe partes de mim quebradas
espalhadas no lençol
respiro a realidade oculta
despeço(me) (d)a tua ausência.


Foto de Rafal Bednarz

sábado, 10 de janeiro de 2009

la valse




dança comigo a valsa das recordações. à mille temps? devagar que o tempo hoje sobra. à trois temps , para começar. rodopia, vá… havia o tempo em que só tínhamos o amor. tínhamos tudo sem o sabermos. esse seria o tempo de éclater de joie. insatisfeitos, não previmos os tempos que viriam. vertigem. aceleremos. à cent temps, agora. rodopia, rodopia. a distância a impor-se dia a dia. lembras-te? o tempo de percorrer as ruas vierges et froides, froides et nues. rodopia mais um pouco. deixa o ritmo aumentar. A quantos tempos já vamos? não esquecíamos rien du tout. os regressos. os inevitáveis e melancólicos regressos. será que a distância se anulava? não respondas. rodopia, só. quero pensar que somos vieux amants, a viver esta terna guerra. mais n’est-ce pas le pire piége que vivre en paix pour des amants? rodopia que quero atingir os mille temps. quero a vertigem para te dizer o necessário. o que nunca te disse. a música está alta. tu estás tonto. não ouvirás. ne me quitte pas!
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De Brel:
La valse à mille temps
Quando on n’a que l’amour
Je ne sais pas
On n’oublie rien
La chanson des vieux amants
Ne me quitte pas


Foto de Andreea Anghel