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sábado, 23 de maio de 2009

cegueira


porquê tu, eu, as palavras a perderem-se em interstícios do real? porquê essa cegueira que te arrasta sem mercê pela margem do que pode ser a vida? nunca me viste. nunca. rasgo-me à tua frente. dizes: amo-te. como um cego de emoções. esvaziado do profundo conteúdo das palavras. da palavra. só tens que cortar os véus que tapam os olhos bem abertos. e as palavras voltarão ao seu dizer primordial. talvez então me vejas.


foto de Harrier

sexta-feira, 8 de maio de 2009

se falares hoje acredito



afogada
na deriva do rio espero o sinal
como flor breve à tona de água

se falares hoje acredito nas tuas palavras bóia
salvação encenada sem luz nem magia

foto de B Berenika

terça-feira, 7 de abril de 2009

versos de incerto rimar

algures neste planalto
alguém chora de abandono
um outro morre de fome
ou de doença já extinta
uma tristeza se espalha
uniforme indistinta
algures entre ti e mim
seca um dia a emoção
o bem-querer por crer tanto
que somos um mar sem fim
de desejo ou de tesão
como te parecer melhor
e quando nos damos conta
já alguém chora de dor

versos de incerto rimar
entre as vagas da paixão
e a doce maré de amar
que espalho de ponta a ponta


foto de Joannès Ceyrat

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

violino



como percorrer estas linhas tensas
que se estendem entre as mãos minhas tuas?
cordas de um violino de notas quebradas
que busca o equilíbrio em longos silêncios

como fazer de todo o ruído sinfonia
e dos sons bálsamo sobre a pele gretada?
se em arco soltas os ais do meu corpo
rouco eco vibrando em cada precipício

como tocar esta fuga em solo
se o violino guarda a memória do som?


foto de Katarzyna Widmanska

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

insanidade



no tempo em que as pedras brilhavam
à transparência dos teus olhos de luar
achava no teu corpo abrigo eterno
escavado nas rochas onde nasci
e a tua voz era eco dos primeiros sons
no labirinto da memória


até que o sopro inesperado
do vento agreste dos teus passos
me arrastou em dor e sangue
e desatou o fio que me prendia
à ténue ilha da insanidade


foto de venedict cristina

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

espelhos do mar



não há unidade nos espelhos do mar
onde as sombras são longas
como dias

desdobro-me em vagos sonhos por abrir
procuro no colo das ondas
a tua face
                          minha cortante amarra
                          vértice de alguma estrela caída


foto de donnie mackay

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

chocolate e baunilha


amanhã é uma palavra redonda
com sabor a chocolate
desfaz-se na boca escorrendo
                              expectativas de prazer
                                                            até à explosão na língua


bebo-te a palavra em beijos de baunilha
antecipo a fome redonda de amanhã



foto de Zbyszek Filipiak

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

assim breve


queres que me diga
pelo punho de uma caneta verde
puxando lustro às palavras
com o óleo que escorre dos olhos
quando assim breve te dás

não nas minhas mãos que se contorcem
                                               no colo das palavras
não na minha boca onde o mel azeda
                                               por excesso de doçura
não em mim enquanto nada sou
                                               de ti.


Foto de Marianne le Carrour

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

arroubos de Florbela




"Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa
Como em doirada taça algum amargo fel"

Florbela Espanca, excerto de "Confissão"


"Estendo os braços meus! Clamo por ti ainda!"*

nos meus arroubos súbitos de Florbela
louca descontrolada
esbarro no aço das defesas do teu peito

"Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!"*

em silenciosos ecos
que me jorram da boca

                                                      [mas até o silêncio te fere a luz dos olhos]

endureço o sonho, a dor, a raiva
frustrações insensatas
de quem de amor se alimenta
e o come
                                                      até à perpétua (in)satisfação

"Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que te sigo assim como os rafeiros leais"**

_____________________

De Florbela:
*excertos de "Aonde?..."
**excerto de "Quem sabe?!..."


Foto de kalua k krynska