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quinta-feira, 9 de julho de 2009

num dia estranho


num dia estranho
acordaram as folhas caídas
nos muros da cidade
onde escorre o inverno do teu medo
procuraste migalhas no avesso do corpo
restos de antigos banquetes
luzes sois vertigens de carrossel
todos os adornos do sonho
na mão aninhou-se a semente pequena
vinda do fundo de ti
gérmen plantado no frio do teu suor
no limite errante da cidade
aguardas a utópica planta
mãos abertas ao carinho da flor


foto de mariab


[a todos, boas férias!]

sábado, 16 de maio de 2009

ponto


nem a pomba que espreita lá fora sabe dizer os caminhos em que os pés sangram. imperfeitos, sempre. damos até a pele esfolada em troca do horizonte irreal a que chamamos felicidade. incompletos, diria. procurando utopias sem as quais somos vazios. vamos perdendo o fôlego na corrida para o inatingível. até um dia que julgamos sempre longínquo. o dia em que perdemos o fôlego. ponto.


foto de Adam Orzechowski

terça-feira, 17 de março de 2009

não acaba hoje o mundo

não acaba hoje o mundo. nem em nenhum outro dia em que o meu mundo acabe. percebes o que te digo? a vida é finita. e infinitamente perene. para lá das tão importantes minudências. dos enfados, dos cansaços, dos desalentos. não somos originais. ninguém é original. sabes quantos já disseram as frases com que (te) me arrasas? as palavras com que (me) te destruo? e, no entanto, diferentes. todos e cada um. na diferença, a vida floresce. e continua. não, meu amor, não acaba hoje o mundo.


foto de fritz fabert

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

rescaldo (2)


este é o campo calcinado pelas chamas que ateaste. debaixo duma lua vermelha. cor de sangue e terra antes de semeada. fértil. pronta a dar fruto. aberta em sulcos de desejo. não este chão queimado que criaste debaixo dos pés. procuro mãos como águas dos rios. líquido corpo penetrando a terra. penhor de esperança derramada no amanhecer.


foto de Donnie Mackay

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

insanidade



no tempo em que as pedras brilhavam
à transparência dos teus olhos de luar
achava no teu corpo abrigo eterno
escavado nas rochas onde nasci
e a tua voz era eco dos primeiros sons
no labirinto da memória


até que o sopro inesperado
do vento agreste dos teus passos
me arrastou em dor e sangue
e desatou o fio que me prendia
à ténue ilha da insanidade


foto de venedict cristina

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

balanço - baloiço



"Par délicatesse j'ai perdu ma vie"
Rimbaud


Perder por delicadeza a vida! Por delicadeza não colher a crica que pousa no peitoril da janela. Por delicadeza deixar que o gonococus tome alegremente conta do nosso corpo. Comer a erva dos tapetes em vez de a pisar; não ser o primeiro e também não ser o último - só por delicadeza!


Alexandre O'Neill in "Poemas com endereço"

Foto de George Sirsiris