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domingo, 16 de agosto de 2009

a montanha

o chão é agora uma amálgama de destroços. sangram os pés descalços. ardem os olhos abertos para os mundos que se degradam. que sabem os homens a quem não incomoda o ar fétido? surdos para a essência, nunca ouvirão o som da flauta. o inequívoco anúncio doutros céus que paira sobre a peste das cidades. escutarão apenas um incómodo zumbido. nunca farão o sacrifício do sangue sobre as pedras do solo. nunca subirão à montanha.


foto de Sam

domingo, 21 de junho de 2009

dor de olhos baços



doem-me as cidades de pedra em que as borboletas não poisam. o silêncio intacto sem ecos do zonzo canto de cigarras. o pó que não saiu do ventre da terra. dói-me a certeza das noites de lua perdida entre paredes imóveis. os gritos dos olhos baços peixes em aquário seco. dói-me este gemido da vida em cada músculo do corpo. faço-me ponte de rios inexistentes. para que eles sejam. para que eu possa ser.

foto de Vincenzo Basile

terça-feira, 3 de março de 2009

das pontes sobre rios cinzentos


...mas se ainda queres falar de cidades
volto hoje aos recantos de outrora
colados na memória
aos mistérios de cada caminho
e das gentes que neles amaram
e viveram
e morreram
falo daqueles que teceram lendas
que te assombram as noites de néon
volto às pontes sobre rios cinzentos
às luzes antigas que nelas se acendem
talvez me encontres do lado de lá
se ainda quiseres falar de cidades…


foto de Tomasz Zubowski

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

princípio e fim


que novas me dás das cidades
onde a luz se pôs de madrugada?
o que me dizes das horas pardas
em que nos perdemos
para lá do portal da distância?

digo-te em verdade que a luz entrará
quando tudo não for mais que a cinza
despojada de nós
que o sopro insano do vento transporta
onde seremos para sempre princípio e fim
ancorados na orla do tempo


foto de hakim talbi