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terça-feira, 16 de junho de 2009

senhora de muitos destinos



quero subir à torre e tocar o céu
dos deuses antigos
pairar imortal sobre a rota das águias
ser incerta e impetuosa como o vento
desmanchar a copa das árvores
e decidir o caminho das nuvens

ser senhora de muitos destinos
multiplicar vidas em voos sem fim
se não fora a certeza da queda
saber nas pedras a imagem de mim


Centum Cellas, foto de mariab

quarta-feira, 27 de maio de 2009

sem transcendência


nos dias em que os pássaros não voam
o sol é um disco laranja
sem transcendência
prendemos olhares na cortina das águas
soltamos longos uivos de silêncio
adormecemos o dia
no sonho inútil da sombra de uma asa.


foto de Assunta

quinta-feira, 2 de abril de 2009

voaremos


voaremos por cima das rochas amarras que nos plantam no chão. o vento virá contra nós , remoinho de força cruel. toda a solidez será desfeita em terra. procuraremos então a essência dos sonhos perdidos. vasculharemos o pó para encontrar pequenos resíduos. vestígios do tempo em que não voávamos. e o vento não nos combatia. tentaremos talvez plantar de novo as rochas. na esperança de uma solidez perene.


foto de Ivan Krap

sábado, 7 de fevereiro de 2009

sonho sobre a lama



voam baixo os pássaros
emissários de más novas
espalhando agoiros nas planícies devastadas
da alma

que importa se são poucos os homens
cujo olhar se lança em altitude
na senda dos azuis inantigíveis?

por cada um se planta um sonho
que floresce sobre a lama
por cada um se abre a porta
ao canto imprevisível da esperança


foto de Tiziano Bortoluzzi

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

e dele as folhas...


não é este o tempo de tentar ver para além da árvore. concentro-me no verde que tapa o horizonte. na gota de chuva que pende da folha. não é este o tempo de voar para lá da árvore. as asas estão presas à terra por fios leves, leves… pensei que podia quebrá-los. têm a firmeza do pensamento. só se quebrarão quando se dissolverem no húmus antigo. dele brotará um novo tronco de mim. e dele as folhas. e dele a libertação das asas. para lá da árvore.


foto de Darius Klimczack


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[Agradeço a amizade e a gentileza da Hercília Fernandes. Este prémio é para todos os amigos que me visitam. Obrigada.]

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

aceitação



"As aves riscam o céu na satisfação do fim.
Conta-se de algumas que cantam ao morrer.
Mas mesmo que não cantem, o animal cumpre-se na aceitação."

Vergílio Ferreira, in Para Sempre



será então assim o voo final
o último cântico
abandono da lama dos telhados
que tapam fundas gavetas
onde se escondem
                        supérfluas paixões
mesquinhas tramas esburacadas
enredos que atam o corpo
                        ateiam a vida

elevam-se as asas
largando o lastro           
peso que arrasta                     
arrasa...                                                


seja assim: aceitação.


Foto de Patrizio Battaglia